Festival Roque Pense! A 2º edição do festival de cultura antissexista

Festival Roque Pense! A 2º edição do festival de cultura antissexista

O Festival Roque Pense! chegou a sua segunda edição com uma programação que contou com debate, oficinas, Jam session feminina de skate, graffiti e, claro, 12 shows de bandas que contavam com, pelo menos, uma mulher em sua

formação. Esse é o principal debate que o projeto levanta: não dá pra ficar parada vendo a banda passar sem questionar o porquê de só os homens, ao longo da história ocuparem, majoritariamente, o cenário cultural que nasce na rua e dela faz seu espaço mais legítimo.

Antes anunciado para acontecer na cidade de Nova Iguaçu, o Festival Roque Pense!,encontrou diversas dificuldades em um ambiente com total ausência de políticas públicas locais para a cultura, e diante de diversas possibilidades se estabeleceu na capital do rock da Baixada Fluminense: Mesquita.

aashowsEnquanto isso as inscrições superaram as expectativas, obtivemos mais que o dobro em relação a última edição, totalizando 118 bandas de 13 Estados diferentes. As cidades próximas também fizeram seus próprios pré-festivais de luxo, e foram eles: os cineclubes Mate com Angu com a Sessão Mate Pense! em Duque de Caxias, e o Buraco do Getúlio com a Sessão Roque Pense! em Nova Iguaçu. As sessões simbolizaram o que o Boletim Roque Pense! anunciava: “Nas ruas, no ano da Cultura Alternativa da Baixada Fluminense”, os coletivos de resistência cultural trabalhando juntos em um momento único para a cena local.

sessões

Pauta de muitos veículos de comunicação, o festival também rendeu capa para a  cena roqueira local em um jornal de grande circulação, dando visibilidade a região que se torna cada vez mais palco de grandes festivais e seus artistas.

E foi nos dias 18, 19 e 20 de outubro finalmente que o Festival Roque Pense! reuniu mulheres que no palco mostraram com vigor sua vocação para o roquenrou. Canto Cego e Algoz, do Rio de Janeiro, tiveram destaque com suas mulheres no vocal e nas performances de Roberta e Elza. Eve Desire de Sampa, apresentou o timbre afiado de Arya Cappia, grávida de Luna, encerrando a primeira noite do festival.

DSC_2770Visceral Leishmaniasis, tendo em sua formação a única representante da região, a iguaçuana e vocalista Luanna Nascimento, ocupou o palco e surpreendeu a todxs com seu vocal gutural, liderando uma banda ainda desconhecida, de estilo muito específico – death metal – com público próprio e uma técnica muito apurada, uma grande revelação. Chamou, organizou e desorganizou a roda. E mesmo com a intervenção infeliz de um cara que tomou seu microfone, ela teve o controle da situação pegando seu microfone de volta, mostrando que estava no comando da noite.

banner armandaA Roda de Ideias veio na seqüência, coroando o debate sobre o ativismo feminino na Baixada Fluminense, tendo como pano de fundo o legado deixado por Armanda Álvaro Alberto, grande homenageada da segunda edição do festival. Educadora revolucionária, Armanda deixou marcas na Baixada Fluminense, das décadas de 20, 30 e 40, devido a sua trajetória feminista e por sua dedicação a uma educação mais justa e menos desigual. Enquanto o projeto gráfico ia sendo desenhado, entre colagens e programas, mais o coletivo ia se apaixonando pela trajetória de uma das maiores feministas brasileiras. Sua imagem estampada em camisas, banners e flyers surpreenderam ativistas e educadoras ao reconhecê-la em meio à um festival de rock.

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A noite de sábado foi comandada pelas bandas Medialunas, Dirty Mary, Santa Claus e Anti-Corpos e marcada pelas participações de ativistas roqueiras de grande importância na cena nacional. Santa Claus, de São Paulo, completou dez anos de formação esse ano recebendo de presente a confissão de uma fã que após o show abordou as artistas dizendo que irá montar uma banda. Assim como dezenas de garotas que procuraram o stand da revista “Hi Hat Girls”,sobre bateristas mulheres, para se inscrever nas futuras oficinas.

DSC_3490Anti-corpos, também de São Paulo, durante sua apresentação posicionou-se sobre temas como o aborto e o machismo. Estavam em casa. A vocalista Rebecca Domiciano também falou da ausência de mulheres na técnica do festival. Assim como em todos os espetáculos, esse é um problema antigo, por essa razão, foram realizadas duas oficinas na tarde de sábado: “Recursos de áudio para mulheres”, ministrada por Rafaela Bianchi, da IATEC, que junto com a oficina “Produção executiva para shows” ação do projeto Laboratório Roque Pense!  também falou sobre os obstáculos que as garotas enfrentam nesses ambientes. Ao final do festival, recebemos da empresa que sonorizou e iluminou os três dias de evento o pedido de indicações de mulheres técnicas para a próxima edição estarem trabalhando conosco.

Maryjane, Roque Pense! e premiadasNo domingo, enquanto as grafiteiras Injah, AV. e Dinha pintavam ao vivo seus traços com olhares femininos e transgêneros, a skatista Maryjane coordenava da 2º edição da Jam session feminina de skate “Girls In Ação”. A ganhadora da categoria FEM 1, Belinha, recebeu o troféu das mãos da skatista profissional Bia Sodré, que prestigiou o evento e foi homenageada, em um momento de muita emoção, onde Maryjane estendeu a homenagem a produtora Giordana Moreira. Tudo isso rolou com a leitura de um manifesto direcionado às e aos skatistas, escrito pelo coletivo Roque Pense! que deixava claro o objetivo da competição “escrever nossa própria história” e ainda finalizou com um convite aos homens para abraçarem a causa e uma frase “Queremos respeito!”.

roque pense 2013A última noite do festival trouxe a dupla carioca LuvBugs; Subburbia, e Uh La La!, ambas de Curitiba, e de Natal Far From Alaska, passeando do norte ao sul do Brasil. Far From Alaska fechou o festival convidando o público para uma roda cheia de garotas, que durou quase todo o show. Nos dias seguintes ao festival em uma entrevista ao jornal O Globo, elogiou o público e o festival com a seguinte declaração:“O pessoal da Baixada quebra tudo, definitivamente um dos melhores públicos que já tivemos, mais animados, roqueiros, doidos, etc.” disse a tecladista Cris Botarelli.

Com todos os shows transmitidos ao vivo o Festival Roque Pense! reuniu bandas, produtoras e garotas que fazem parte da história da cultura rock alternativa e estimulou o desejo de fazer parte em muitas outras.

Com a produção executiva da Terreiro de Ideias, uma produtora cultural referência na  assessoria e apoio a grupos e artistas da região, o festival de cultura antissexista foi o único do Estado do Rio de Janeiro patrocinado pela Petrobras no ano de 2013, uma questão importante no contexto da produção cultural local e no acesso das mulheres aos meios de produção de cultura. Um caminho longo, divertido e marcante, dirigido apenas pelo desejo da região e das mulheres: fazer rock sem sexismo.

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aGrafiteiras Injah Dinha e AV

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