Violência domestica e feminismo nas rodas da Baixada Fluminense

Crédito da foto: Marilia Cabral

Chegar com um grande festival feminista em uma das cidades mais ricas do país, porém com o desenvolvimento humano abaixo de qualquer boa expectativa, e eleita a líder de notificações de casos de violência de gênero no Estado do Rio de Janeiro, com uma campanha sobre violência domestica, foi um desafio que se colocou para o coletivo Roque Pense!

O tema foi escolhido após a divulgação do Dossiê Mulher – Instituto de Segurança  Pública 2013 e 2014 - que aponta Nova Iguaçu e Duque de Caxias, as duas maiores cidades da Baixada Fluminense, em que mais se registram casos de violência contra a mulher. Aliada ao aumento da insegurança pública da região, visível após a implantação da UPPs, a invisibilidade das violências sofridas por mulheres pobres da periferia, o tema do festival não poderia ser outro.

Em tempo de celebração ao Dia Internacional da Mulher - o festival foi de 5 a 8 de março – a Campanha “Roque, Mulheres e Novas ideias por uma Baixada sem violência” foi tema da terceira edição do festival com a palavra de ordem: Violência Domestica Não sou Obrigada!

Com a consultoria de importantes personalidades da luta pelo direito das mulheres, a historiadora Marlúcia Santos, a pesquisadora Luciene Medeiros e a gestora Rita Andrea, e a contribuição de participantes do encontro aberto, realizado em novembro de 2014, a campanha se desenhou como uma desconstrução da cultura machista através da linguagem da juventude. Uma campanha visual com as artistas Injah, Elaine Rodrigues, Dee Dee, Gi Cognato, Mate Lelo e Tatch Pereira, provocava o debate, e o tema foi debatido de várias formas em toda a programação da terceira edição do Festival Roque pense!

Uma Roda de Ideias trouxe as convidadas Jussara Oliveira, coordenadora do Blogueiras Feministas, para falar sobre a exposição da mulher para seu controle, como é o caso da Cyber vingança, violência recorrente no cotidiano das jovens. A ilustre convidada Schuma Schumaer, escritora e referência na luta feminista brasileira que falou sobre a importância do dialogo com a juventude, e Luciana Campello, que expôs o trabalho desenvolvido pelo Fundo Elas, uma organização que apoia grupos de mulheres em todo o país. Importantíssimo para o combate a violência de gênero no Brasil o Fundo foi co-patrocinador através do edital Fale Sem Medo, do Instituto Avon, que fomentou dezenas de ações de enfrentamento da violência domestica.

Nas oficinas de produção cultural dezenas de jovens mulheres se reuniram para aprender técnicas de produção de lambe lambe e videoclipes, porém a procura de adolescentes para conhecer sobre feminismo e integrar algum coletivo foi grande. A produção de cartazes trouxe um pouco dos debates que rolaram.

Crédito da foto:  Marilia Cabral
Crédito da foto: Danilo Sergio
Crédito da foto: Danilo Sergio
Crédito da foto: Danilo Sergio

As imagens projetadas no palco e repetidas pelas bandas durante suas apresentações, seja através da musica, de posts nas redes sociais ou de seus próprios discursos no palco, chegaram aos ouvidos de homens e mulheres de todas as idades que compareceram aos shows ou acompanharam via transmissão ao vivo pela internet. O fanzine com orientações sobre violência domestica e adesivos de apoio a campanha foram distribuído para as cerca de 4 mil pessoas presentes.

A banda Drenna trouxe uma performance de dança burlesca, onde a liberdade do corpo foi refletida de forma artística com a dançarina Alice Red Desire “Se uma pessoa não te respeita nua ela não te respeitará vestida”.

O show da banda Útero Punk foi um espetáculo a parte. Com uma proposta assumidamente feminista, a vocalista Tati Góes contou sua trajetória de sobrevivente de abusos na infância, e trouxe isso para o palco, numa atitude de enfrentamento, com punk rock e uma performance que ficou para a história do festival: “Acredito que a Útero não seja só uma banda, nossa proposta é formar público, torna-los promotores dos direitos das mulheres. De verdade é isso que gostamos de fazer, show para pessoas que ainda não conhecem o feminismo, abrir a mente destas pessoas. Muitas vezes somos alvos de xingos, mas estamos ali para desconstruir o machismo e o sexismo e isso não vai nos derrubar.”, disse a líder da banda.

Crédito da foto:  Marilia Cabral
Crédito da foto: Marilia Cabral
Crédito da foto: Danilo Sergio
Crédito da foto:  Marilia Cabral
Crédito da foto: Danilo Sergio
Crédito da foto: Danilo Sergio

E o debate tomou conta da Praça. O Coletivo abriu uma roda de dialogo no palco que e se estendeu em dezenas de rodas formadas por uma rede de iniciativas culturais pela BF. A efervescente cena cultural da região, composta por saraus, rodas de rima, cineclubes e festas escolheu o tema mulher/feminismo para o mês de março. O debate tomou conta dos conteúdos e as mulheres tornaram visíveis seus comandos nessa intensa produção cultural cotidiana. O RP! participou do Buraco Feminista, sessão promovida pelo Cineclube Buraco do Getúlio, em Nova Iguaçu, do Caldo de Cultura, Mesquita, em um debate com feministas que construíram o movimento na região desde a década de 80, da sessão “Não Sou Obrigada” do Cineclube Mate com Angu, em Duque de Caxias, do Sarau RUA, em Nilópolis, que promoveu um emocionante encontro entre produtoras da região. Essa onda feminista foi espontânea, mas revelou algo que ainda estava invisível: a potencia das mulheres produtoras culturais na Baixada Fluminense.

Crédito da foto:  Marilia Cabral
Crédito da foto:  Marilia Cabral

Esse enfrentamento da violência domestica na juventude através da desconstrução da cultura machista, seja pela estética, pela arte, pelo pensamento e pela ação, mostrou possibilidades de construção de novas ideias e comportamentos, políticas públicas e iniciativas, para se aplicar quando adolescentes e jovens são expostas na internet, abusadas dentro de casa, assediadas na rua e no transporte publico ou nas dificuldades – internas e externas – de coletivos feministas. A campanha provocou, mas o enfrentamento da violência continua nos nossos rocks de cada dia.

Crédito da foto: Danilo Sergio

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